O caminho de Santiago: nossa experiência como peregrinos

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Vamos lhe contar desde o começo sobre a nossa experiência como peregrinos com O Caminho de Santiago.

De onde começamos e terminamos, sobre o trajeto, as belezas e as dificuldades, os alojamentos e pessoas especiais que encontramos no nosso caminho.

Existem vários Caminhos até Santiago de Compostela o mais famoso é o Caminho Francês que passa pela Fronteira Franco-Espanhola nos Pirineus, cruzando todo o norte da Espanha.

Uma breve história sobre o caminho

A origem do caminho se dá através de um dos discípulos de Jesus, Tiago Maior. Que após sua morte e obedecendo os seus mandamentos de evangelização, parte para a região onde hoje conhecemos como Galícia-Espanha, no ano 6 d.C.

Após sua missão Tiago Maior retorna a Palestina, onde viveu até o ano 44 d.C e foi decapitado pelo rei Herodes Agripa.

Nada se tem comprovado, mas conta-se a lenda que Tiago Maior, antes de morrer, queria que o seu corpo fosse levado à Espanha. Onde por anos viveu evangelizando. Por meio de seus discípulos, Teodoro e Atanásio em uma nau de pedra guiada por anjos, o corpo do apóstolo foi levado as atuais terras espanholas.

Posteriormente uma capela foi construída sobre o corpo de Tiago Maior. Já no século IX, após ser queimada pelos mouros, a pedido do Rei Alfonso III o grande. Uma nova igreja foi erguida e no ano 1211 foi entregue a Catedral de Santigo de Compostela.

Desde então, acredita-se que os restos mortais do apóstolo Tiago se encontra ali e todos aqueles que fizessem o caminho seriam perdoados de seus pecados.

Fato é que independentemente do motivo que atrai centenas de peregrinos a percorrerem o caminho de Santiago todos os anos. Todos fazem da melhor maneira possível e aqueles que conseguem cumprir até o final, terão histórias emocionantes e de superação para contar.

Nossa experiência como peregrinos
Os Pirineus

Fica a dica: nossa experiência como peregrinos

Segundo a nossa experiência com o Caminho de Santiago, deixaremos algumas dicas para que o seu trajeto seja mais leve e fluído:

  • Prepare fisicamente, antes de fazer o caminho, tenha resistência para caminhar por horas.
  • Tenha um pouco de inglês, pois poderá perder a oportunidade de conversar com pessoas do mundo inteiro e quem sabe o nascimento de grandes amizades.
  • Invista em uma mochila segundo o seu tamanho e que seja confortável de carregar.
  • Um tênis leve e de preferência um número a mais.
  • Uma sandália de caminhar, ajudará a descansar os pés do tênis.
  • Leve apenas o essencial mesmo.
  • Carregue pequenas quantidades de dinheiro e conforme for necessitando saque nos bancos das cidades grandes.
  • Procure os albergues das Igrejas Católicas, assim economizará nas hospedagens.
  • Tenha um bastão, ele te ajudará quando as suas pernas já estiverem cansadas.
  • Saia sempre antes do nascer do sol, além de poder apreciar o nascimento dele, poderá desfrutar de uma bela tarde na cidade em que se hospedar.
  • Respeite os limites do seu corpo, pois no dia seguinte precisará de forças para seguir viagem.
  • Faça uma estimativa de quantos quilômetros quer andar por dia e dos locais que deseja parar para passar a noite.
  • Cada vez que terminar  uma diária de caminhada, verifique a rota que terá que seguir no dia seguinte, pois lembre-se, o melhor é sair de madrugada.
  • Por mais que esteja exausto, saiba apreciar os lugares que passar. Poderá ser que esta, seja a única vez que estará ali.
  • Esteja aberto para novas amizades ou simplesmente para conhecer novas pessoas.
  • Seja solidário, todos ao seu redor estão passando pela mesma situação que você.

Passaporte do Peregrino

Nossa experiência como peregrinos
Passaporte do Peregrino

Antes de partir, você precisa fazer o Passaporte do Peregrino, que lhe dará acesso em albergues municipais e hospedarias gratuitas ou um pago de um valor simbólico em alojamentos da Igreja Católica. O nosso fizemos na Paróquia de Santiago em Madrid.

Muito importante também, é que com ele você terá a prova de que fez total ou parte do caminho. Quando chegar em Santiago de Compostela, poderá solicitar o documento A Compostela ou o Certificado do Peregrino.

Pré viagem

Para chegarmos ao nosso ponto de partida, saímos de Madrid da estação de Atocha e pegamos o trem com direção a Pamplona, de lá pegamos um ônibus até a cidade de Saint Jean Pied de Port, na França. Foi ali que começou o nosso trajeto e  dos demais peregrinos.

Ainda estando na cidade de Pamplona conhecemos duas senhoras simpáticas da Califórnia, que vieram muito animadas para a viagem, seguimos com elas até chegarmos na França.

Nossa experiência como peregrinos
Americanas de Califórnia

Assim que chegamos, buscamos um alojamento que nos custou 15 euros incluído o café da manhã. Tomamos banho, deixamos nossa mochila ali e fomos conhecer essa cidadezinha tipicamente francesa e charmosa.

A essa altura, as americanas resolveram ficar no hostal e nós saímos, porque também queríamos jantar. Foi aí que conhecemos duas espanholas de Valencia que foram bastante gentis conosco, conversamos e jantamos juntos.

Chega a hora de dormir, dividimos o quarto com pelo menos 8 pessoas. Acordamos as 6:00 da manhã, arrumamos nossas coisas e descemos para tomar café da manhã, tudo muito simples… pão francês de verdade rsrs com manteiga e café com leite.

Vimos pessoas muito felizes e de varias partes do mundo inclusive brasileiro, um baiano de 34 anos que pretendia realizar o caminho em 30 dias e depois encontrar a família em Barcelona que viria do Brasil.

Nossa experiência como peregrinos
Saint Jean Pied De Port ( Pireneus Franceses)

Curiosidades

Ainda não comentamos sobre quanto tempo leva para fazer todo o caminho. Em media são 30 dias.

Mas claro, isso é muito pessoal, depende de onde você começa, quantos quilômetros pretende andar por dia, sua velocidade em caminhar e tal…

O importante mesmo é seguir sempre adiante com muita garra, preparo físico e mental, pois já lhe adianto… não é nada fácil, mas muito recompensador.

Entre os peregrinos e aos que se dirigiam a nós, a frase que mais escutávamos era, Buen Camino… com todos os tipos de sotaque possível.

O caminho: destino Roncevalles

Nossa experiência como peregrinos
De Roncevalles à Santiago de Compostela

Nossa experiência como peregrino começou numa segunda-feira, às 8:00 da manhã, com frio e neblina e aos sons do sino da igreja. O caminho de Santiago já começa com subida e era só o que encontraríamos pelos próximos quilômetros. Carregavamos uma mochila não muito pesada, mas que viria pesar com o passar do tempo.

Eram os belíssimos Pirineus que tínhamos que cruzar. E quanto mais subíamos mais exuberante ficava a paisagem, um verdadeiro espetáculo da natureza. Mas também o mais difícil trecho do caminho.

Aos 8 quilômetros paramos em um bar para tomar um suco e descansar um pouco, porque a nossa caminhada diária estava apenas começando. Depois de descansar, seguimos caminhando por horas até chegar no pico mais alto das montanhas 1.429 metros de altitude, sem palavras pra descrever tamanha alegria.

Chega a hora da descida da montanha, faltava apenas 4,5 quilômetros e meio para terminar a cota do dia e quando pensamos que teríamos um pouco de alívio depois de tanta subida, a verdade é que desejamos continuar subindo, porque a descida foi muito pior.

Carregando a mochila, que a essa hora pesava uma tonelada, com ajuda do bastão fomos nos apoiando. Os pés pareciam que iam furar o tênis, uma dor horrorosa no joelho e o medo de sair rolando montanha a baixo era o nosso maior medo.

Por fim chegamos ao destino, Roncevalles, a primeira cidade da Espanha, colada ao pés dos Pirineus. Já era quase 18:30 depois de caminhar 26 quilômetros.

Nosso alojamento era uma antigo monastério de 300 anos. Tomamos banho, jantamos e as 22:00 horas, as luzes se apagaram e dormimos.

Nossa experiência como peregrinos
Hospedaria de Roncevalles

O caminho: destino Ponferrada

Às 6:00 da manhã as luzes se acenderam, arrumamos nossas coisas, tomamos café da manhã. Então resolvemos mudar nossos planos e demos um salto até Ponferrada, pegamos um ônibus até Pamplona e de lá um trem.

Saindo da estação de trem de Ponferrada, encontramos Pedro, um espanhol  de 61 anos da cidade de Salamanca, muito simpático, mas um verdadeiro tagarela. Seguimos com ele até encontrar o Albergue Paroquial San Nicolás de Flue, que cobrava apenas uma contribuição voluntária.

Aproveitamos que ainda era dia e fomos dar uma volta pela cidade. Compramos comida em um supermercado e cozinhamos no albergue. Aliás como esquecer esse dia, havia umas 20 ou mais pessoas famintas, querendo apenas preparar uma comida ao mesmo tempo. Um pequeno caos se você pode imaginar…

Passamos a noite ali e logo cedo levantamos e seguimos a viagem com o Pedro.

 

Nossa experiência como peregrinos
Ponferrada – Castilla y León

O caminho: destino Villa Franca del Bierzo

E a nossa experiência como peregrinos, continua. Nesse dia caminhamos uns 20 quilômetros, de manhã estava fresquinho e não pegamos subidas, mas logo o dia começou a ficar quente e a nossa caminhada ficou mais difícil.

Após 11 quilômetros, paramos para comer e descansar, Pedro não quis ficar conosco e seguiu sozinho, pois tinha muita pressa. E agora se já não bastava o sol quente sobre nossas cabeças, vieram as subidas e o trajeto cada vez mais pesado.

O melhor desse dia foi passar por uma plantação de uvas e uma cidadezinha que mais parecia uma cidade fantasma.

Nossa experiência como peregrinos

Por fim chegamos a Villa Franca del Bierzo, uma cidade pequena, mas super charmosa com uma igreja do século XIII e XIV.

Ficamos hospedados num albergue católico na região central. Tudo muito limpo e organizado, e o melhor… Dividimos um quarto grande que cabia umas 15 pessoas mas naquela noite dividimos com apenas dois jovens. Foi a melhor noite que tivemos.

Nossa experiência como peregrinos
Villa Franca del Bierzo

O caminho: Cebreiro

Começamos a caminhada um pouco mais tarde que o habitual, às 7:00 da manhã, ainda estava escuro e frio de 8 graus, mas o caminho estava plano, o que muito nos ajudou. Caminhamos toda a manhã, apenas algumas paradas curtas para comer ou descansar.

Em nossa experiência como peregrinos sempre nos reservava alguma surpresa. Nesse dia nem sequer imaginávamos que o nosso destino seria uma cidade incrível, um lugar onde apenas víamos em filmes de época ou que ainda pudesse existir.

Era Cebreiro…

Nossa experiência como peregrinos
Cebreiro-Galícia

Uma vila Celta na região da Galícia, no alto de uma montanha. Como muitas vilas medievais que encontramos pelo caminho. No qual existia apenas umas 25 construções, incluindo uma igreja, uma hospedaria e um mercadinho. Havia alguns comércios e o resto casas, todas feitas de pedra bruta além das ruas também.

Chegamos em Cebreiro às 14:40, estávamos exaustos, pois como disse a cidade fica no alto de uma montanha. Além de enfrentarmos o sol quente e as mochilas que já pesavam bastante… E pior, quase ficamos sem lugar para dormir, pois a hospedaria estava quase completa quando chegamos… sorte a nossa, que pudemos apreciar o encanto daquela cidade.

Vale destacar aqui a Igreja da cidade, chamada Santa Maria a Real do Cebreiro construída no século IX em estilo Pré Românica, ou seja mais antiga que o próprio caminho. Estava lá, intacta, cheia de boas energias.

Nossa experiência como peregrinos
Igreja Santa Maria a Real Do Cebreiro

Mas infelizmente nem tudo saiu perfeito naquele dia. Chegou a hora de dormir, foi aí que começou o pesadelo.

O que ouvimos naquela hospedaria foi uma verdadeira sinfonia ou melhor, uma disputa de todas as formas possíveis sem exagero, de roncos… Mesmo tendo o protetor de ruídos, foi impossível dormir naquela noite, o que nos prejudicou no dia seguinte, pois a caminhada tinha que continuar.

O caminho: destino Sarria

A caminhada começou bem cedo, saímos de Cebreiros às 5:50, andamos por mais de 1 hora em total escuridão ainda na colina. E quando chegamos em baixo preferimos caminhar pelo acostamento da rodovia, para dar um descanso aos pés. Pois os meus naquela altura da caminhada já estava repleto de bolhas, o que muito me dificultava.

Após algumas horas, passamos por uma pequena cidade chamada Triascatela. Entramos em um bar para tomar um refrigerante, nesse momento vimos um táxi parado em frente. Foi a aí que decidimos seguir o nosso caminho até Sarria, à 20 quilômetros dali de táxi, pois meus pés estavam pedindo socorro.

O taxista nos deixou próximo a um albergue da Igreja Católica, tudo muito limpo e organizado, mas foi o mais caro de todos os que tínhamos passado.

Nossa experiência como peregrinos
Albergue da Igreja Católica

Em nossa experiência como peregrinos, podemos encontrar pessoas maravilhosas e nesse dia encontramos Vilma. Uma eslovena muito querida e prestativa que aprendeu espanhol e se preparou dois anos para fazer o caminho, fisicamente e psicologicamente. Ela já vinha há mais de 3 semanas caminhando sempre feliz e firme no seu propósito.

Passamos toda a tarde conversando em espanhol com ela e almoçamos juntos, uma deliciosa pasta que ela mesma preparou.

Fomos dormir…

No outro dia sem despedidas, sem cerimônias, Vilma se foi… rumo aos seus últimos quilômetros. Foi muito bom ter conhecido Vilma, uma mulher cheia de boas energias, guerreiras e admirável.

Já eu não podia mais andar, as bolhas não me permitiram seguir viagem a pé.

O caminho: destino San Marco

Nossa experiência como peregrinos, teve altos e baixos, mesmo com as inúmeras bolhas, muita coisa boa vivemos até aqui.

Devido as circunstâncias, pegamos um ônibus até a cidade de Lugo e depois outro até San Marco. O principal albergue em que ficamos está onde se encontra o Monte do Gozo à 5 quilômetros de Santiago de Compostela.

Nossa experiência como peregrinos
Monte do Gozo – San Marco- Galícia

Ali conhecemos uma alemã de Frankfurt, uma senhora que estava há 15 dias no caminho e que dividimos o quarto com ela.

San Marco traz uma áurea muito positiva, pois os peregrinos quando chegam ali, já começam a sentir-se recompensado, todo sofrimento fica para traz… o Monte do Gozo, faz jus ao seu nome, explica bem o sentimento de dever cumprido.

O caminho: destino Santiago de Compostela

Nossa experiência como peregrinos e de todos os demais, chegar em Santiago de Compostela é nosso maior troféu, nosso verdadeiro destino sonhado por varias semanas.

Por volta das 7:00 da manhã, saímos. De verdade não podia andar, doía muito meu pés, mas o desejo de completar os últimos 5 quilômetros falou mais alto. Queria sentir o mesmo sentimento daqueles que fizeram e o fariam o caminho completo a pé.

Pegamos o bastão e fomos. Andava como uma senhora de idade de muleta, levamos mais de duas horas para fazer apenas 5 quilômetros, os últimos e tão desejados.

Por fim, chegamos. Coloquei um chinelo para poder andar um pouco melhor. A cidade estava repleta de peregrinos, muitos quando chegavam, deitavam em frente a imponente Catedral de Santiago de Compostela.

Ao 12:00 assistimos a missa que é celebrada a todos os peregrinos que depois de muita luta e dedicação, chegaram a cidade onde está os restos mortais do Apóstolo Tiago Maior.

Nossa experiência como peregrinos
Missa celebrada aos peregrinos

Os peregrinos que ali chegam recebem inúmeros sorrisos ou até mesmo palavras de felicitação, de moradores locais. Na nossa experiência como peregrinos vimos como os galegos são receptivos e queridos.

Nossa experiência como peregrinos
Catedral de Santiago de Compostela

Depois de um pequeno passeio por ali, buscamos um hostal para passar a noite. No outro dia, nos despedimos da cidade, pegamos o trem e voltamos para Madrid.

A Compostela ou certificado do peregrino

A você que deseja fazer o caminho, como já foi comentado no início desse post, é importantíssimo que adquira antes de começar a sua peregrinação o Passaporte do Peregrino. Além dos benefícios obtidos para se hospedar mais barato, ele é a garantia de que você cumpriu o trajeto.

Durante o caminho, o seu passaporte deverá ser selado em cada hospedagem em que passar ou quando encontrar uma igreja ou um local. Lembre-se que em qualquer cidade que tenha autorização do carimbo mesmo que você não vai parar, aproveite para adquirir o selo.

Quando chegar em Santiago, poderá solicitar para a Igreja Católica, o documento oficial chamado A Compostela caso o seu motivo tenha sido religioso. Mas se o que levou você a fazer foi por diversão ou esporte, será concedido o Certificado do Peregrino.

Ambos documentos só serão dados aos peregrinos, que fizerem 100 quilômetros e em ordem itinerário ou 200 quilômetros para aqueles que fizerem de bicicleta. Isso vale para qualquer rota que escolher.

Nossa experiência como peregrinos
A Compostela

Esperamos que com esse post, segundo a nossa experiência como peregrinos, tenha esclarecido suas dúvidas e curiosidades. E se estiver pensando em fazê-lo, leve em consideração nossas dicas, com certeza lhe ajudarão…

BUEN CAMINO…